sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

"As pessoas se sentem felizes, eu faço bem para alguém gratuitamente, isso é incrível."


(A equipe Dive Comunicação com o radialista Rodrigo Branco{à esquerda na foto}.

O rádio. O meio de comunicação mais rápido( ou será que a internet o superou?). Durante anos foi o principal "alimento" da população quanto à diversão, política, economia , telenovela(essa foi velha), entre outras coisas.

O rádio talvez seja o único veículo de comunicação que é possível você imaginar as coisas. Uma voz normalmente é imaginada totalmente diferente da realidade. É só você fazer o teste. Normalmente, a imagem que fazemos na cabeça de um locutor, por exemplo, não se enquadra quando o encontramos ao vivo.

Rodrigo Branco, é locutor da Kiss FM. E ao contrário do que ele diz, tem uma bela voz, que condiz com a sua personalidade e carisma.

A vida é engraçada. Uma palavra que escutamos de uma pessoa faz a gente se identificar. "Esse cara aí, tem atitude". Com o Rodrigo Branco, foi assim.

Passamos várias madrugadas ouvindo as aulas que o Rodrigo dava ao vivo na rádio quando anunciava as músicas. Esse cara manja, era o que pensávamos. E mostra uma sinceridade e integridade na voz. Parece estranho, mas tudo isso mostrou-se verdade mais pra frente.

Começamos a conversar pela internet, sua educação e boa vontade sem ganhar nada em troca, foi o que mais chamou atenção.

Tivemos um excelente bate-papo com o Lord nos estúdios da Kiss.

Só o que podemos dizer é: muito obrigado, Rodrigo, e continue fazendo o seu grande trabalho na rádio, o rock precisa de você.



Dive Comunicação: Rodrigo Branco, muito obrigado pela entrevista, é muito importante para nós realizar uma entrevista com um grande cara como você.
Vamos começar do início, como o rock surgiu na sua vida?

Rodrigo Branco: Obrigado a vocês da Dive. O rock surgiu na minha vida através dos meus irmãos, acredito que na década de 1980, depois do Rock in Rio, o rock era muito forte no Brasil, eu era uma criança, meu irmão mais velho(atualmente, ele não é mais do rock), não seguiu esse caminho perdido(rs), mas ele tinha os discos do Iron Maiden, AC-DC. Eu acabava ouvindo os discos do meu irmão mais velho e dos amigos da rua. E rádio, eu ouvia muito rádio.

Dive: Você teve banda?

Rodrigo: Nunca tive banda, fui convidado algumas vezes, mas nunca tive, aprendi a tocar um pouco de guitarra. Tenho guitarra atualmente. Mas eu nunca tive paciência pra sentar e ficar treinando. Pra você ser um bom músico, você precisa se dedicar. Então para ser um mal músico, eu prefiro não ser.

Virei um crítico frustrado(risos)... Sabe aquela história: todo cara que critica na verdade é um músico frustrado. E quem sabe, mais pra frente ,eu venha ter uma banda...

Dive: Você nasceu em Santos? Já conhecia o Titio Marco Antônio?(outro locutor da Kiss, também nascido em Santos)

Rodrigo: Nasci em Santos, vivi a maior parte da minha vida em Santos; mas já faz dez anos que estou em São Paulo.

Foi pura coincidência,eu e o Titio nós somos de turmas diferentes em Santos, embora ,com amigos em comum. Ele é um  pouco mais velho do que eu. Mas só vim a conhecê-lo aqui na Kiss.

Dive: O lance da rádio, como surgiu na sua vida? Trabalhou em outras rádios?

Rodrigo: Trabalhei em três rádios antes de vir para a Kiss. A Kiss é a minha quarta rádio. A primeira rádio que eu trabalhei foi em Santos, Enseada, a rádio rock do litoral. A rádio durou de 1997 a 2003.
Entrei em 98 e fiquei até o final. Lá foi muito bacana. Fiz muitas coisas. Lá eu tinha um programa de heavy metal que eu apresentava.

Foi uma rádio muito boa. Teve uma expansão no Brasil inteiro, sendo uma rádio local.
Infelizmente, em 2003, foi vendida para a igreja universal.
Os empresários não quiseram bancar, embora, a rádio fosse rentável. Eles quiseram ganhar um dinheiro fácil com a igreja. Trabalhei também na 98, essa existe até hoje no litoral. Mas cada hora ela está num estilo diferente: já foi Mix, Transamérica, Jovem Pan e 89- a Rádio Rock-foi nessa época que eu entrei.

Saí da Enseada e fui pra 98, a Rádio Rock, rede da 89, aqui de São Paulo. Eu já conhecia o pessoal da 89, pois tinham a parceria da Enseada com a 89, era o Verão 89. Graças a isso, com os contatos que eu tinha, eu me mudei pra São Paulo para trabalhar na 89. Foi um curto período. Quando eles mudaram de estilo, eu fui um dos demitidos... fiquei na rua da amargura e fiquei batendo na porta da Kiss, até conseguir. E estou há 8 anos na Kiss fm. Entrei em 2007.

Dive: Você tem algum grande ídolo da voz ?

Rodrigo: Nunca fui ligado nisso. Até porque , eu nunca tive voz de radialista, a minha voz é comum. A 89 acabou com o estigma do locutor com aquela voz empostada, a 89 colocou um pessoal mais jovem para comandar a rádio. Me deu esse estalo quando eu era moleque: isso eu posso ser também. Caras com voz comum. Nunca tive grandes ídolos no rádio, admiro muita gente, mas não vou citar ninguém com o risco de esquecer alguém.

Dive: Em 8 anos, você entrevistou muita gente, deve ter aquelas entrevistas favoritas, e algumas que te deixaram mais desconfortável

Rodrigo: Favoritas tenho bastante. Uma específica, que é para um público restrito, não são todos que conhecem a figura, é o baixista Rudy Sarzo( ex-integrante das bandas: Quiet Riot, Ozzy Osbourne, Whithesnake, Dio, entre outras), eu gostei muito. Super simpático e acessível. Contou histórias de bastidores que eu nem tinha perguntado. 
Uma legal também é a banda de southern rock, Black Oak Arkansas, eu já gostava muito da banda, dai eles vieram para  a Virada Cultural. Virei amigo do guitarrista, ele sempre comenta minhas fotos no Facebook, acho engraçado, uma banda de outro país... toda vez que coloco o meu chapéu, o guitarrista comenta, sabe, aquele estilão deles, né? Então ele curte o meu estilo(risos).

Os caras do Anthrax foi muito legal. Suicidal Tendencies também. A que mais marcou, foi a primeira, com o Zakk Wylde, o engraçado que o Titio iria fazer a entrevista, mas os caras da banda atrasaram tanto, que acabou sobrando pra mim. Pegaram um trânsito e não conseguiram chegar a tempo do Alternativa Kiss( apresentado pelo locutor Titio Marco Antônio), e acabou ficando para o meu horário. Foi inesperado. Uma hora eu perguntei após chegar na rádio:"cadê os caras?", responderam que não vieram em função do trânsito, mais pra frente me comunicaram:"eles estão chegando e você vai ter que fazer a entrevista".
Não deu tempo de me preparar. Isso me deixou bem nervoso. Foi bem legal, o Zakk Wylde foi bem simpático e aberto.
O grande problema foi que, o assessor de imprensa deles trouxe o novo álbum deles em cd-r, a ordem das faixas estava invertida. Sem introdução, eu anunciei uma música e era uma outra. Mas eu não conhecia o disco. Nisso quando a música acabou, eu entrei de novo no ar e falei o nome da música errado duas vezes. E começaram a me malhar no twitter.
"Esse cara diz que é fã e erra o nome da música...".
(Rodrigo Branco, assim como o Pedro Pellegrino, é um grande fã de Bruce Springsteen).

Dive: E aquele entrevistado mala, já aconteceu?

Rodrigo: A entrevista meio mala foi com o Andrew Eldritch , do Sisters of Mercy. Ele é conhecido por ser um cara difícil. Ele não foi um cara mala comigo, mas na mesma semana ele deu entrevistas para outros veículos de comunicação e aconteceram alguns incidentes.

Como eu já sabia o jeito do cara, eu me preparei e sabia o que não poderia fazer. Perguntas como: de onde surgiu o nome Sisters of Mercy. Acabou a entrevista. Perguntas óbvias que qualquer um acha na internet-wikipédia. E ele odeia falar sobre a treta com Wayne Hussey(fundador do The Mission). Ele fica incomodado. Ele não foi antipático, mas também não fez questão de ser educado.
Ele sentou nesse lugar onde você está, de capuz e óculos escuros(era noite) e ficou olhando para o microfone, não olhou para mim.

E foi curioso que em determinado momento ... eu não falo inglês fluente, tenho dificuldade em entender algumas coisas, principalmente um cara fechado como ele. E eu percebia que antes do intérprete traduzir, ele se antecipava  e começava a responder a pergunta. Porque ele entende português, é um notório poliglota. A entrevista foi tensa, mas foi legal.

Uma hora foi inusitado, eu perguntei a que se deve  o sucesso da banda após tantos anos . Ele fez um gesto de que não tinha a mínima ideia, aí é aquilo, é rádio,  eu expliquei para os ouvintes, mas ao me ouvir traduzindo o gesto dele, ele mandou um "luck" depois. Esperto.

Dive: Qual o prazer em fazer rádio? Você deve escutar muitas histórias de pessoas que fazem do rádio a sua companhia...?

Rodrigo Branco: A gente faz parte da vida delas. A gente fica recebendo depoimentos o dia todo. Elogios.
A rádio alegra a vida delas. Aquele dia o ouvinte estava mal, e por uma palavra que eu disse, ele se alegrou, melhorou o humor. Foi o que você falou, sabe? Tem gente que odeia as minhas opiniões. Mas nós recebemos ótimos feeedback.

Esses dias eu estava no Cambuci, e um garotinho começou a me chamar, eu achei que era um pedinte, estava atrás de mim:

- O senhor é o Rodrigo Branco, da Kiss?

-Sou sim.

- Nossa, eu não acredito, a minha mãe falou pra eu ir falar com o senhor, que demais, eu adoro a Kiss!

As pessoas se sentem felizes, eu faço bem para alguém gratuitamente, isso é incrível.

Dive: Você dá um espaço enorme para as bandas nacionais na programação.

Rodrigo: Eu gosto do rock brasileiro. Ao passar dos anos, o rock brasileiro foi perdendo o espaço , foi minguando. Eu sempre trabalhei com isso. Lançar bandas novas. No programa que eu tinha na Enseada FM, era especializado em heavy metal, mas nós tocávamos hardcore-rock and roll. E eu colocava todas as bandas de Santos no programa. E várias bandas foram ao programa vindo de São Paulo. O Torture Squad é uma delas. 
Fiz amizade com os caras assim. Convidava pra dar uma entrevista , as bandas desciam a serra só pra dar a entrevista. Sempre gostei de valorizar o trabalho autoral. Colocar coisas novas. Agora na Kiss, temos mais de um espaço para o rock nacional, a reformulação do Br-102, o programa do Clemente: Filhos da Pátria. Queremos tocar não apenas o clássico, mas as bandas nacionais.

Dive: E o seu trabalho de dj na noite, em festas

Rodrigo: Eu gosto da noite. De organizar eventos, sou um dj natural, né? Vem da rádio isso de ser dj. É um prazer discotecar à noite, às vezes dá dinheiro, às vezes paga o táxi, a gente toma uma e se diverte.

Dive: Rodrigo, você tem opiniões políticas fortes nas redes sociais, atrapalha? 

Rodrigo: atrapalhar, atrapalha. Existem muitas opiniões reacionárias . Não quero que ninguém concorde comigo, mas às vezes as pessoas dão opiniões que não são normais. Vivemos numa democracia, eu entendo, mas as pessoas são muito conservadoras , no meio do rock as pessoas são reacionárias, repetem clichês, não se informam  e passam adiante muita informação falsa. Não procuram saber se aquilo é verdade ou não. Eu procuro ser o contraponto dessas pessoas. 

Dive: Qual o conselho que você daria para quem quer tornar-se radialista?

Rodrigo: Ser radialista é difícil. Ás vezes eu tô aqui trabalhando três horas. Entro às 14 e saio as 17. Ar condicionado, sentado... fico três horinhas. E tem gente que chega aqui e fala:"pô,é isso aí que você faz? Também vou virar radialista". Não é fácil não. Eu digo isto porque, é um mercado muito pequeno, muita concorrência. Em São Paulo tem 30 e poucas rádios. Pode parecer muito, mas é pouco para uma cidade que tem 20 milhões de habitantes, a Grande São Paulo, a região metropolitana. Quantas vagas vão ter em cada rádio? Aqui na Kiss são 9 locutores. Então, se fizermos uma conta rápida, são 350 vagas de radialistas em São Paulo. Maior cidade do país. Pra rock são só duas rádios, é muito difícil você se colocar neste mercado. Você conseguir entrar e se manter. A dica que eu dou é o seguinte: começar pelo interior. Ter formação profissional, não precisa ser faculdade, mas você precisa ter o DRT exigido, pode fazer no Senac ou Rádio Oficina, ou faculdade de Jornalismo e Rádio-TV. Você precisa conhecer de música. Tá cheio de jornalista por aí que não conhece de música. Você tem que bater na porta das rádios, insistir, mas tem que sair de São Paulo pra começar. Raramente você vai encontrar alguém que começou em São Paulo. A maioria não nasceu aqui. Aqui na Kiss, se não me falha a memória, todos começaram no interior. É isso, comece pelas bordas, interior de sp, praia, litoral... As pessoas acham que vão se formar e já vão começar a trabalhar na Kiss.

Dive: Rodrigo Branco, o que o rock significa pra você?

Rock é vida. O rock mudou a minha vida. Quando descobri o rock, minha vida mudou. Desde então, eu vivo para o rock. O fato de eu não ter banda, talvez tenha a ver com a minha dedicação ao rádio. Como eu sempre trabalhei com rock. E hoje em dia mais do que nunca: eu vivo de rock.
O rock é tudo, comportamento, estilo visual, rock...
(Fotos do cenário da rádio)



( Os locutores da Kiss Fm)


Fotos por Mila Pinheiro Todos os direitos reservados - Dive Comunicação

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