segunda-feira, 7 de março de 2016

ENTREVISTA HISTÓRICA!



Entrevistar um dos seus ídolos. Não é fácil. Ou melhor: é fácil, as perguntas vieram rapidamente em minha cabeça.
Sou jornalista desde 2007. E acompanho o Claustrofobia desde 1998. Isso não é pouca coisa. Pra mim é uma grande honra e responsabilidade entrevistar o vocalista de uma das minhas bandas prediletas. É louco isso. Sua vida caminhar mais ou menos paralela à trajetória de uma banda. Você é capaz de lembrar como era a sua vida quando o primeiro disco da banda foi lançado, incrível.

O Claustrofobia tem 20 anos, fico imaginando quantas entrevistas o Marcus D'Angelo concedeu em toda a sua vida...

E olhando as respostas aqui, ele mantem o mesmo vigor de quando começou, a mesma energia, e intensidade, e humildade.

Ao ler as respostas, eu fiquei emocionado, porque o meu amor pelo rock and roll não foi em vão.

Obrigado, Marcão, e vida longa ao Claustro!


Dive Comunicação:

Marcus D'Angelo, obrigado pela entrevista, para nós é essencial entrevistar o vocalista de uma das maiores bandas de metal do mundo.

Você lembra da primeira vez que escutou um rock 'n roll? Qual banda estava tocando na sua vitrola? Foi influência da sua família ou você descobriu por acaso ouvindo alguma rádio?

Marcus D’Angelo: Primeiramente, muito obrigado pela oportunidade. Me lembro de uma cena quando eu tinha uns 7 ou 8 anos duns cabeludos agitando na televisão, era o programa Clip Trip,se não me engano. Minha mãe estava passando roupa e eu fiquei com medo de dizer pra ela que eu achava legal (risos). Criei coragem e disse a ela que eu achava legal, me surpreendi com a reação dela, que foi positiva. Essa foi realmente a primeira vez que me lembro de algo relacionado ao rock. Já por volta de 90/91 foi inevitável a descoberta do Guns and Roses devido ao sucesso na época. Ainda em 1991 eu morava em Leme/SP conheci o Daniel Bonfogo (baixista) na escola e o instinto era pelo som mais pesado possível, o irmão mais velho de um amigo em comum nos apresentou o Iron Maiden e todas aquelas capas maravilhosas.  Ali estava tudo definido pra mim.

Dive :

Sua primeira banda foi o Claustrofobia ou você teve outras?

Marcus: À partir desse momento a vontade de ter uma banda foi instantânea, já montamos a banda sem ao menos saber tocar (risos). Acabei tentando tocar com uns malucos mais velhos, que eram do Punk ,mas não durou mais que 1 ensaio. O embrião começou em 1993 dentro de casa, Daniel acabou tocando com  outras bandas na época, mas éramos todos amigos e sempre estávamos juntos. Tivemos  alguns nomes antes como Extermination (risos) até definirmos Claustrofobia em Janeiro de 1994 quando eu tinha 13 anos.

Dive:

Pensou em tocar outros estilos dentro do rock ou o metal foi paixão a primeira escutada(risos)?
Marcus : Tocamos muitos covers desde o Punk mais underground até coisas que faziam sucesso na época, mas o Metal era nosso objetivo, porém, ainda precisávamos aprender a tocar.

Dive:

Marcus, vocês começaram muito novos a desbravar a "Selva Urbana", como foi para vocês sair de uma cidade do interior(Leme) e vir para a São Paulo?

Marcus : Minha família sempre foi muito guerreira e correria, eram muitas mudanças, Sp – Leme e vice -versa. Acabamos voltando pra São Paulo/SP em definitivo em 1995. E o único que esta na banda até hoje dessa época é o Daniel. Acredito essa foi a primeira grande mudança crucial na nossa carreira. Estava entrando na adolescência e nada como São Paulo pra ensinar como o mundo funciona. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido pra banda.

Dive:

Desde muito cedo, vocês foram acolhidos por grandes bandas no cenário do rock\metal nacional, qual foi a sensação de no começo de carreira já dividir o palco com grandes nomes da música?

Marcus: Sim, éramos bem pivetes e isso chamava atenção, todo mundo desacreditava mas quando viam nossa atitude, dentro e fora dos palcos, na maioria das vezes a reação era positiva. Ainda em 1995 tocamos com Inocentes no Aeroanta em SP, fizemos abertura do Viper e Golpe de Estado na Praia Grande/SP. Meu pai era novo e metia o louco com nós pra lá e pra cá. Até briga de garrafada já rolou (risos).

Dive:

Por serem muito inexperientes, devem ter sofrido calotes e outras coisas típicas do nosso país...

Marcus : Muitos. E isso durou até pouco tempo atrás. A gente sempre lutou de coração e nessa vai aprendendo e vendo como as coisas funcionam. Hoje já estamos mais cautelosos.

Dive:

A primeira vez que assistimos vocês, foi na MTV, no programa Ultrasom, comandado pelo Edgard Picoli, vocês tocaram a música "Tabaco" e uma releitura de "Territory" do Sepultura, o ano era 1998,- para os fãs do Sepultura, o Claustrofobia continuava a história do metal nacional, pegava a camisa 10 emprestada e ia pro campo marcar um golaço- o que significou pra vocês esse programa?

Marcus : Foi a primeira grande exposição da banda. Televisão era muito impactante. Apesar de já naquela época (1998) termos tocado em tudo que é buraco, muita gente conheceu a banda por essa apresentação. Mais um passo.

Dive:

Em 2000, lançamento do primeiro álbum, apesar da pouca idade do Claustro, foi aclamado como um dos principais lançamentos daquele ano, como foi a gravação no Mr.Som, com os lendários Marcello Pompeu e Heros Trench do Korzus?

Marcus: Na verdade ,o álbum saiu em 2000, mas foi gravado em 1998. Entramos num estúdio que até então era o melhor que já tínhamos visto com ninguém menos que o Pompeu no comando da gravação. Korzus sempre foi uma grande influência pra nós e o sonho foi concretizado quando a Destroyer na época viabilizou o lançamento. Lançar um CD era muito difícil, bem diferente dos dias atuais. O álbum ficou muito legal pra época e começamos com o pé direito.

Dive:

No ano de 2004, após terem lançado o segundo disco Trasher (2002), vocês tocaram no Sepulfest, nós estávamos lá e podemos perceber em nosso primeiro show do Claustrofobia que a banda ainda iria render muitas histórias no underground , o festival foi um divisor de águas para vocês?

Marcus :Com certeza! Posso dizer que esse foi um dos shows mais importantes da nossa historia, isso se não for O mais importante. Foi uma época de transição, estávamos ficando mais velhos, começamos a desbravar o Brasil na raça, fizemos turnês pelo nordeste de 45 dias de busão de rodoviária. E isso foi mostrando o comprometimento e atitude de estar na estrada. Me lembro que voltamos da tour do nordeste, passou alguns meses recebemos o convite do próprio Sepultura pra abrir o evento. Foi um grande evento, organização perfeita, tratamento excepcional pra todas as bandas, quando entramos no palco a casa já estava cheia. Foi aqueles dias que tudo da certo. Fizemos um dos shows mais brutais, depois do Sepulfest nosso publico renovou de forma impressionante. Acredito que pelo menos a nível de Brasil, 2004 foi o ano que consolidou o Claustrofobia na cena do Metal.

Dive:

Em 2014, completaram 20 anos de banda, praticamente com a mesma formação, nos conte o segredo?(risos)
Dificilmente uma banda consegue lançar cinco álbuns com o mesmo line-up, alguma vez pensaram em dar um tempo na banda em função dos problemas?

Marcus: Sim ,inúmeras vezes. O mercado nem sempre está a seu favor, o que fazemos nunca foi pra agradar ninguém mesmo que possa parecer o contrario pra muitos. A vida vai passando e você vai mostrando pra que veio. É complicado quando vc é escolhido pela arte e não contrário ,entende? É um compromisso inexplicável. Apesar de altos e baixos, só temos que  agradecer de ter uma família que viu a banda nascer, apoiou e correu junto, e verdadeiros aliados que sempre estiveram lado a lado nas alegrias e tristezas. Os obstáculos e as tretas da vida servem pra separar o que tem que separar e fortalecer o que é verdadeiro. Tudo e todos tem suas razões, a própria cruz, são muitos erros e acertos, sua fé está eternamente sendo testada, e vai cada vez afunilando mais. Não é nada simples e fácil, vivemos sempre no limite. Não sabemos o dia de amanhã, mas estamos na luta enquanto houver inspiração. Não escolhemos, somos escolhidos, acredito muito nisso.

Dive:

No ano passado, pela primeira vez, desde o primeiro álbum, o Claustro anunciou a saída de um integrante: Alexandre de Orio foi substituído por Douglas Prado, como se deu esse processo?

Marcus:  O processo foi relativamente rápido, voltamos da tour e entramos num consenso que seria melhor dessa forma em respeito ao legado da banda, pela postura que o Claustrofobia se criou e pelo bem maior da todos.
Logo após a confirmação da decisão tomada, rapidamente começamos a pensar em alguns nomes e também sobre a possibilidade de abrir algum tipo de teste, e até  de repente migrarmos para um Power trio. Porém existia um outro consenso geral dentro do núcleo da banda antes de tudo isso em fazermos um teste com o Douglas Prado. Ele tinha apenas 17 anos (talvez quando essa entrevista sair, já 18) e já conhecíamos seu talento, comprometimento com a guitarra, sua personalidade, sua família, etc.
Ele frequentava nosso QG em São Paulo desde os 10 anos de idade e já se mostrava um talento nato. Além disso fez aulas com o próprio Alexandre e estava em praticamente em todos os shows do Claustro no meio da porradaria. Ele vivia o Claustrofobia desde criança, e sempre foi um moleque foda que demos uma força e vice- versa.  Inclusive rolou uma Jam session com ele, eu e o Caio alguns anos atrás de zueira, ele tinha 14 anos tocamos uns Sepulturas, Claustro, etc, e ele chegou junto. Tínhamos uma apreensão natural por causa da idade, e o resultado foi que em menos de 3 meses já estávamos em cima do palco renovado e honrando o Claustrofobia, o feedback dos fãs e envolvidos foram extremamente positivos. Só o tempo pode dizer como serão as coisas e ainda o Douglas vai viver muitas experiências, mas quando é verdadeiro temos que acreditar.
Posso afirmar que a banda nunca esteve tão forte musicalmente como estamos agora, estamos muito felizes, confiantes e com uma energia poderosa pulsando na veia.


Dive:

E a convivência com o seu irmão(Caio D'Angelo, baterista do Claustrofobia), mesma banda, moram na mesma casa, mais ajuda ou atrapalha nas composições do Claustro? O problema grave de saúde que ele teve na última turnê européia de vocês, deve ter fortalecido a irmandade, nos conte um pouco sobre o ocorrido?

Marcus: Ter irmão na banda existe dois lados, as tretas são sangrentas, porém tudo é falado no ato, desde de dentro de casa até em cima do palco. E o entrosamento é eminente por mais diferente que sejam as personalidades. Você pode sentir isso ouvindo as musicas. Às vezes a divergência está lá, porém se harmoniza.
E sim o problema que ele teve serviu pra fortalecer muita coisa, o Caio tem um espírito muito forte, ou você ama ou odeia. Foi algo realmente grave que foi superado por merecimento dele. Sempre estivemos juntos nas alegrias e tristezas e quando a casa caiu foi um baque porém algo nos fez estar preparados pra viver aquilo. A força e criatividade do Caio é crucial dentro da banda e  sempre abalou as estruturas. Meus riffs, pelo menos em nome do Claustrofobia não teriam a mesma vida sem ele na bateria. Antes, durante e depois desses tipos de situações é que você enxerga quem está na mesma sintonia, então foi uma lição muito grande pra nossa família, pra banda e envolvidos. E só temos a agradecer quem superou, acreditou... Nossa relação fortaleceu e está mais equilibrada do que nunca.

Dive:

Fizeram três turnês na Europa, qual foi o país mais inusitado que vocês tocaram? Sabemos de algumas histórias: a dos instrumentos"roubados" na Alemanha, a do acidente de carro causado por um fã em outro país e o frio que vocês passaram em algum desses países europeus, fazendo com que vocês decidissem de uma vez por todas a gravar um disco inteiro em português, é mais ou menos por aí?

Marcus: Vixi, falar a verdade eu nem lembro direito, aconteceu tanta coisa, e temos o costume de não registrar porra nenhuma. Aí você conta e ninguém acredita (risos).
Mas é bem por aí, altas historias legais e ilegais. Nossa historia sempre foi baseada em luta, correria, muito stress, ignorância, misturado com muita loucura e até certo radicalismo nos nosso pensamentos apesar de não sermos mente fechada. Isso tudo alimentou muita coisa boa e ruim. É muito sentimento a flor da pele. Mesmo assim sempre tivemos o compromisso dentro do possível, com a qualidade, compromissos, ensaios, criação, etc, isso sempre esteve intacto. Plantamos muita verdade em  nossa trajetória. Sempre tivemos a ideia de fazer um álbum inteiro em português, e depois de certas experiências sentimos que era hora e descarregamos tudo isso de forma positiva e definitiva no álbum PESTE!
Dive:

Marcus, o sexto disco do Claustrofobia já está gravado(é o último com o guitarrista Alexandre de Orio), já existe uma data para o lançamento? Pode revelar o nome do disco? Fizeram com um grande produtor Britânico, não é verdade?

Marcus: Acredito que segundo semestre de 2016 estaremos com o álbum disponível. Pretendemos soltar uma musica em breve também. O nome do álbum será revelado muito em breve, tínhamos um nome e de ultima hora ficamos na duvida, falta pouco. O álbum foi produzido pelo britânico Russ Russell que tem trabalhado com o Napalm Death desde o magnífico Enemy of Music Business, bem como já produziu bandas como Lock Up, Exploited, New Model Army, Evile, entre outras. Ele veio ao Brasil exclusivamente pra nos atender no Norcal Studios em São Paulo/SP. Ele já mixou o disco na Inglaterra e a masterização foi feita nos Estados Unidos pelo Brendan Duffey. Além disso, o que posso dizer até o momento é que estamos extremamente felizes com o álbum, era uma questão de honra lançar um disco como esse, não terá experimentos, é direto ao ponto e tem todo sentimento e amor ao Metal durante todos esses anos, aconteceram muitas coisas durante todo processo que tornou esse álbum mais especial ainda. A temática é direcionada para o planeta em geral e não apenas para o Brasil, e apesar do disco ser em Inglês, tem uma linguagem fácil e obviamente teremos 2 musicas matadoras em português. Será uma nova era pra nós.


Dive:

Uma curiosidade que temos:  antes do lançamento do Fullminant(2005), assistimos um show do Claustrofobia no Outs, com a excelente banda Subtera, lembramos de estar do lado de fora, e só ouvir os guturais dos vocalistas do Subtera e o seu, Marcus, mas o que queremos perguntar é: essa noite serviu de inspiração para a música "Underground Party"? Sempre que ouvimos essa música lembramos dessa noite no Outs.

Marcus: Não especificamente nesse evento, mas foram várias noites como essa nessa louca estrada que inspiraram sim essa musica.

Dive:

Qual é o seu álbum predileto do Claustrofobia? E se pudesse levar para uma ilha deserta cinco discos de outras bandas, quais seriam?

Marcus: Impossível eu dizer o predileto do Claustro. Todos tenho um sentimento especial, foram momentos diferentes, todos representaram muito bem nossa realidade no momento e serviram de laboratório pra o que esta por vir. Acredito que no PESTE chegamos 100% no nosso som. E o próximo será muito clássico e representará um renascimento.
Levaria pra ilha:
Metallica - Kill em All
Sepultura – Beneath the remains
Slayer – Reign in Blood
Terrorizer – World Downfall
Iron Maiden – Iron Maiden

Dive:

Qual é o seu filme predileto? Pode indicar algum livro pra rapaziada ler? Indicaria algumas bandas nacionais?

Marcus: Nunca assisti muitos filmes e livros acho que conto nos dedos, e todos são livros Espíritas. Isso é algo que me arrependo, mas nunca tive muita paciência, eu sempre gostei de ouvir musica e tocar. Mas filme gosto mais de realidades, destacaria Rockers, um filme da periferia da Jamaica que rola uma cena underground e suja de Reggae, acontece varias fitas engraçadas e qualquer um do Rocky Balboa.
Banda nacionais: Krisiun, Ratos de Porão, Surra, Sepultura, Desalmado, Lacerated and Carbonized, Nervosa, Torture Squad, Worst, Oitão, Ação Direta, Project46, Andralls, Imminent Attack, Forka, Voodoopriest, Presto?, Muqueta na Oreia, Korzus, Confronto, Unearthly, Gammoth, Periferia S\A...


Dive:

Última pergunta , mas antes disso, gostaríamos de agradecer mais uma vez, o Claustrofobia é uma de nossas bandas de cabeceira, e para nós é uma honra entrevistar você, fique à vontade para falar o que quiser, e deixar algum contato, se quiser.
Marcus : Eu que agradeço pela oportunidade de estar falando sobre um momento muito importante que ainda estamos desvendando. Muito obrigado mesmo. Estamos na fúria pra mostrar o novo trabalho e tudo que temos de melhor adquiridos nesses anos. A essência esta intacta, renovada e com todos mirando mesmo alvo. Agradeço muito por ter merecido essa situação depois de tantos obstáculos. Nos vemos em breve. Obrigado especial ao fãs que esses sim são o que temos de mais verdadeiro e precioso nessa conversa toda.

E vamos para a última pergunta:

O que o rock significa pra você?
Marcus D’Angelo: A cura e a motivação da minha vida.



( Marcus, Douglas Prado, Caio D'Angelo e Daniel Bonfogo)

Um adendo: toda segunda-feira às 22 horas, os irmãos D'Angelo comandam um programa de metal na rádio Praia FM, é o Som Extremo, confira em: www.praiafm.com.br 





(Pedro Pellegrino e Marcus D'Angelo no show do Gojira no Carioca Club)



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