terça-feira, 22 de março de 2016

UM DOS ÚLTIMOS HERÓIS DO UNDERGROUND



Fábio Mozine, se você nunca ouviu falar dessa pessoa, você deve ter morado nos últimos anos em Plutão.
Baixista de uma das principais bandas de hardcore do Brasil, o Mukeka di Rato, integrante e um dos líderes das bandas Os Pedrero e Merda, Mozine é um cara incansável. Por mais que ele diga que está cansado.

A frente da gravadora Laja Records-e também loja de roupas, com todos os artigos possíveis, incluindo aí o ídolo da criançada: Crackinho, Mozine (autor do livro Una Gira En Sudamerica- Com o Conjunto de Música: Rock Merda) ainda tem tempo de responder entrevistas.

Mozine definitivamente é um dos últimos heróis do underground.

DIVE COMUNICAÇÃO

Mozine, 20 anos de banda completados no ano passado, o que você diria para o fã do Mukeka se ele pedir mais 20 anos?


Mozine: No atual ritmo que são menos ensaios e menos shows, é capaz até que aconteça, a não ser que a cachaça ceife nossas vidas antes.

Dive: Em 2017, vão completar 20 anos do Pasqualin na Terra do Xupa-Cabra, o que esse disco representou pra vocês? Existem planos para o relançamento?

Mozine: Na verdade o disco está em catálogo, tanto em cd como em lp, dessa forma a gente pode dizer que ele nunca foi relançado, e sim, sempre re-editado.  Uma regravaçao desse disco, como o Ratos de Porão fez com o Crucificados pelo Sistema, regravando ele todo com uma roupagem atual, eu acho fora de cogitaçao.  Acredito que cada disco tem sua historia, o Pasqualin é tosco, mau gravado, com erros, vozes horriveis, cansadas (afinal o Sandro(vocalista) gravou umas 15 musicas num dia só), mas o Pasqualin é assim, e assim tem que ficar.  Representou muito pra mim e pro Mukeka, é o primeiro disco, tem várias musicas muito queridas que são impossiveis de ser cortada do set list, porém, ao mesmo tempo foi um disco que nos deu muito trabalho, principalmente na mixagem.  Na epoca faltava dinheiro, foi bem duro fazer esse disco, gastamos economias pessoais, dinheiro de pai, de tio, e ainda rolou a síndrome da demo tape foda, que foi a eterna  comparação do tipo “poxa, na demo tape essa musica era mais legal hein?”

Dive: Se você pudesse escolher um álbum do Mukeka, qual seria?


Mozine: Carne.

(Nós da Dive achamos a música "Carne" a obra prima do Mukeka).

Dive: Sei que essa pergunta enche a paciência, mas por onde anda o antigo vocalista Bebê? Alguns fãs pedem a volta dos guturais no som da banda?

Mozine: Alguns fãs (poucos) conheceram o Mukeka di Rato com o Bebê, nem sabiam do Sandro, é mole?  Tem muita gente que gosta do Mukeka mais com Bebê, mais  com o Sandro e gosta mais dos discos.  Eu acho o Máquina de Fazer um disco brutal, por mim tocaria ele inteiro nos shows.  Não sei aonde anda o Bebê, depois da ruptura com o Mukeka ,ele se afastou (até onde eu sei) do hardcore, das bandas, e não nos vimos mais.

Dive:  O seu começo no rock and roll foi com o Mukeka, ou você teve outras bandas? 

Antes do Mukeka di Rato eu toquei numa banda chama Revolta Social e depois em outra chamada Carcará.  As bandas existiam, praticavam alguns ensaios precarios mas nunca tocaram.  O Revolta Social tem uma fitinha gravada, eu ficava batendo numas panelas e porta de armário, o som era anti música, noise, grind, a banda atualmente existe em Vila Velha com o nome de Revolta.  Com o Carcará pode-se dizer que foi um pouco mais sério.  A banda era formada por mim e Zuzu, esse cara que me ensinou (sic) a tocar baixo, era meu vizinho e amigo de infância.  A letra de New Wave Índio eu escrevi nessa banda, depois passei pro Mukeka.  Zuzu em 1998 montaria Os Pedrero comigo, ele gravou o primeiro CD da banda, Hard Rock Dreams, é o vocal  e guitarra nesse disco, do segundo disco dos Pedrero em diante é outra formação, sem ele.

Dive:  Como consegue conciliar o Mukeka com as bandas Os Pedrero e Merda?

Mozine: A coisa tem se tornado mais complicado a cada dia que passa, porém, com todos os componentes de todas as bandas envolvidos com diversos projetos particulares,trabalho, filho, velhice, temos tocado bem menos, por opção, o que pra mim é bom, pois já me sinto cansado.  Não dos shows ,nem da galera, porque essa é a melhor parte, mas a locomoção e os aeroportos que me matam.  Eu por exemplo tenho muito prazer em tocar em SP, sempre os shows são bons, financeiramente é  bom e tenho grandes amigos, mas as 2 horas de táxi que eu gasto do aeroporto até o hotel e/ou local do show já tiram meu humor quando eu coloco meus pés na cidade.  Eu sou caipira da praia, gosto de ficar em cidades pequenas do lado do  mar.

Dive:  Existem planos para outras turnês no Japão? Se você puder, nos conte um pouco sobre o dvd gravado nesse país

Mozine: Existem um plano / convite pro Merda ir tocar no Japão, mas não creio se isso pode mesmo acontecer.  O DVD foi todo registrado pela gente, de forma caseira, e assim o Juliano Enrico (direto do dvd) passou.  As pessoas dizem que a impressão que da após assistirem o dvd é que participaram da tour e isso é legal.  Na época que estávamos fazendo o dvd, editando e re-editando eu creio que assisti isso umas 20 vezes, talvez seja por isso que eu nunca mais o vi, tambem porque odeio ver a minha imagem gravada, eu sinceramente não lembro de nada do dvd e o show em Vitória que vem de bonus (o dvd é duplo) é uma bosta.  Vale pelas imagens, pela doidera, o PA se movendo no meio da galera, nego dando stage dive do segundo andar do local do show, mas o som é uma bosta, não consigo escutar.

Dive: Atualmente todos os integrantes do Mukeka moram no Espirito Santo?

Mozine: O Brek(baterista) mora em SP e parece que vai se mudar para SC.  O restante mora em Vila Velha.

Dive: Como está a repercussão do último disco? É o álbum que menos tem letras em português, qual a razão? 

Mozine: Sempre quisemos fazer um disco em inglês, espanhol,  italiano, finlandês, que são as linguas de bandas européias de hc e crust que gostamos e das bandas americanas, que também nos influenciam muito.  O disco dividiu opiniões.  Alguns fãs creem até que é o melhor disco do Mukeka e dizem que deveríamos estar nessa linha sempre, desde o início da banda que para eles o Mukeka di Rato é isso.  Outros torceram o nariz, principalmente os que curtem as partes mais leves e irônicas do Mukeka, músicas tipo "Minha Escolinha", etc.  Eu gosto muito.  Geralmente eu não consigo e não gosto de ficar escutando os discos das minhas bandas, apenas dois discos consigo e gosto de escutar ainda: Índio Cocalero do Merda e esse disco do Mukeka.  Apesar do som desse disco ser tosco, podre, mais pesado, tem muita produçao envolvida nele, isso graças a  Fernando Sanches e Daniel Ganjaman, foi muito legal trabalhar com esses dois caras.  O Ganja colocou na mixagem dosagens de delay nunca usadas no Mukeka di Rato, isso também dividiu opiniões, eu gosto.

Dive: E a participação do João Gordo e do Giulio Bastardo do Cripple Bastards?

Mozine: São dois grandes amigos da gente.  Conheci o Gordo e Giulio basicamente na mesma época, que foi uma tour do RDP na Europa, em 2001, foram 48 shows e eu convivi 6 dias com o Giulio na Itália, numa época de exageros descomunais.  Desde então sempre mantivemos contato, negócios entre as gravadoras.  Ficamos muito lisonjeados com a participaçao dos dois.

Dive:  O Crackinho é um herói nacional? Como surgiu a ideia de fazer esse boneco? A Laja Records é uma gravadora, loja de roupas, uma das mais importantes lojas virtuais desse estilo "roqueiro", existem planos para criar uma loja física? Pessoas que nem sabem o que é punk-hardcore compram os artigos da loja, a que se deve essa popularidade?

Mozine: Existem diversas lojas físicas que representam a Laja, e creio que essas lojas serão as Lajas, muito improvavelmente eu abrirei uma loja.  Gosto de ficar aonde estou, que é dentro da minha casa de cueca e de chinelo ouvindo Discharge, com a possibilidade de parar o que estou fazendo, ir na praia, e voltar pra casa e continuar trabalhando normalmente.  Isso pra mim é felicidade, e não ter lojas, ganhar mais grana, ter filiais, etc.  O quarto onde funciona a Laja é como se fosse o porão onde funciona a Recess Records, e assim vai ser.  O Crackinho é um herói nacional sim.

Dive: Vocês vão gravar um clipe do novo álbum?
 Mozine:  Temos algumas ideias mas não sei quando algo realmente vai sair do papel.

Dive: Conte um pouco sobre a relação do Mukeka com o Hangar 110. A Dive já assistiu vários shows nessa casa e sempre são intensos e com muito público.

Mozine: Felizmente a maioria das nossas relações com publico, casa de shows, contratantes, festivais tem sido essa: fidelidade e respeito.  Costumamos chegar num lugar pela primeira vez e continuar indo sempre.  Assim é com o Hangar 110.  Reza uma historia que Mukeka di Rato e Dead Fish fizeram o primeiro sold out da casa.  Somos recebidos lá sempre com muito carinho e é uma das minhas casas de shows preferidas.

Dive: Você poderia citar algumas bandas nacionais que chamaram a sua atenção nos últimos anos?

Mozine: Sempre que me fazem essa pergunta eu digo isso antes: eu tenho uma gravadora, então, é impossivel eu não citar as bandas da Laja.  Não se trata de marketing nem protecionismo, é que seu lanço essas bandas, é porque eu gosto delas, e são: Water Rats, Figueroas, Lo Fi, Bode Preto, Facada e a minha banda favorita das Américas, o Hablan por la Espalda.

Outras bandas não Laja que gosto e tenho observado muito: Deb and the Mentals, Test.
Ouça muitas coisas fora do hardcore, tem muita coisa de música brega, paraense, eletrônica que tenho curtido mas não vou citar aqui.

Dive: Última pergunta, muito obrigado pela entrevista, o que o rock significa pra você?

Mozine: Significa me sentir um pouco mais jovem quando eu olho pros meus amigos de infância que tem a mesma idade que eu.



(Paulista-guitarra, Mozine- contrabaixo, Sandro- microfone e Brék- bateria)

7 comentários:

  1. Obrigado, amigos! Voltem sempre, e espalhem a palavra da Dive por aí(risos). Abraços.

    ResponderExcluir
  2. Mozine respeito máximo, idolo do hardcore, esse cara é foda!
    Fiquei triste pelo Bebê, o cara era um puta vocalista, pena q "desistiu" de ter banda.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Falou e disse, JCosta. Valeu por ter lido a entrevista. Abraços.

      Excluir